Formação gratuita reuniu profissionais de diferentes corporações de Cambé e Londrina, com o objetivo de tornar o atendimento à comunidade surda mais acessível, humano e inclusivo.
Profissionais das forças de segurança pública de Cambé e Londrina, no Norte do Paraná, participaram na noite de quinta-feira (16/10) da formatura do primeiro curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras) voltado especificamente a esses profissionais na região. A capacitação gratuita reuniu policiais militares, policiais civis, bombeiros, agentes de trânsito e integrantes do SAMU, com o objetivo de melhorar a comunicação e o atendimento às pessoas surdas, principalmente em situações de emergência.
Ao longo de três meses, os participantes dedicaram parte do tempo livre ao aprendizado da Libras, em uma iniciativa construída por voluntários e apoiadores que acreditam na importância de garantir um atendimento público mais acessível.
O projeto também ganhou reconhecimento na Câmara Municipal de Cambé, onde a vereadora Ellen Affonso apresentou uma Moção de Aplausos em homenagem aos alunos, ao professor e aos voluntários envolvidos na formação.
Curso reuniu profissionais de sete unidades de segurança e atendimento
A formação contou com a participação de profissionais de diferentes instituições que atuam diretamente no atendimento à população de Cambé e região.
Entre os órgãos representados estavam:
- 11ª Companhia Independente da Polícia Militar de Cambé;
- 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina;
- Delegacia de Polícia Civil de Cambé;
- Delegacia de Polícia Civil do Adolescente de Londrina;
- Corpo de Bombeiros Militar de Cambé;
- Secretaria Municipal de Segurança Pública e Trânsito (SESTRAN) de Cambé;
- Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de Cambé.
As aulas aconteceram durante 12 encontros, distribuídos ao longo de três meses, realizados às quintas-feiras, principalmente na sede do Corpo de Bombeiros de Cambé.
O espaço foi disponibilizado com o apoio da tenente Ana Júlia, que acolheu a iniciativa e permitiu a realização das atividades nas dependências da corporação.
O curso foi ministrado pelo professor Fernando Marquesini, especialista na área de Libras, com formação em Letras e Língua Brasileira de Sinais.
A capacitação também contou com a participação de membros da comunidade surda, que contribuíram diretamente para a aprendizagem prática dos participantes.
Um sonho que nasceu da necessidade de inclusão
Uma das principais incentivadoras do projeto foi Tânia Maria Bailoni Alessandrino, que ajudou a mobilizar os participantes e a transformar a proposta em realidade.
Apaixonada pela Língua Brasileira de Sinais e pela comunidade surda, Tânia conta que a iniciativa surgiu da experiência de acompanhar as dificuldades enfrentadas por pessoas surdas em atendimentos cotidianos, especialmente na área de segurança pública.
Segundo ela, Cambé possui uma comunidade estimada em quase 300 pessoas surdas, que muitas vezes enfrenta barreiras de comunicação e permanece pouco visível para parte da sociedade.
“Sou apaixonada por Libras e tenho muito carinho pela comunidade surda. Temos quase 300 surdos em Cambé, uma comunidade escondida, ninguém os vê. Este projeto é um sonho realizado”, relatou.
Tânia também relembra que nem todos acreditavam na proposta inicialmente.
“Quando comecei a falar sobre isso, me chamaram de louca. Perguntavam por que eu iria perder tempo com algo assim. Mas não era perder tempo, era doar tempo. Era tudo gratuito”, contou.
Para ela, a maior recompensa está na possibilidade de um profissional conseguir compreender e acolher uma pessoa surda justamente em um momento de dificuldade.
Experiência na Polícia Civil mostrou a importância da Libras
A trajetória do projeto também está ligada à experiência de Tânia no atendimento ao público na Polícia Civil.
Ela relembrou o caso de um trabalhador surdo de Rolândia que teve sua bicicleta furtada e enfrentou dificuldades para conseguir atendimento devido à barreira de comunicação.
Depois de não conseguir se comunicar durante o atendimento inicial, o homem foi encaminhado para Cambé, onde Tânia conseguiu atendê-lo utilizando seus conhecimentos de Libras.
A situação reforçou a percepção de que era necessário preparar os profissionais da segurança pública para situações semelhantes.
Segundo Tânia, muitas vezes a dificuldade não está na falta de vontade de atender, mas no receio dos próprios profissionais diante da impossibilidade de estabelecer uma comunicação.
“A pessoa tem medo, tem receio. Eu vi a dificuldade dessas pessoas e percebi que precisava fazer alguma coisa”, explicou.
Parceria com a vereadora Ellen Affonso ajudou a tirar projeto do papel
A iniciativa ganhou força quando Tânia apresentou a proposta à vereadora Ellen Affonso, que abraçou o projeto e colaborou para sua realização.
As duas já haviam participado de um curso de Libras realizado anteriormente em Cambé, durante o período da pandemia, por meio da Agência do Trabalhador.
Na época, as aulas também eram ministradas pelo professor Fernando Marquesini.
Anos depois, Tânia e Ellen voltaram a conversar sobre a necessidade de ampliar o conhecimento da Língua Brasileira de Sinais, principalmente entre profissionais que prestam serviços essenciais à população.
A primeira ação foi a organização de uma audiência pública, que reuniu representantes da comunidade surda, intérpretes e pessoas interessadas na inclusão.
Durante o encontro, integrantes da comunidade surda também tiveram a oportunidade de apresentar suas experiências e dificuldades.
Mas, para Tânia, era necessário ir além do debate.
“Não dava para ficar só na audiência pública, trazer os surdos, os intérpretes e falar sobre o assunto. A gente precisava fazer alguma coisa de verdade”, relembrou.
Foi então que ela conversou com o professor Fernando sobre a possibilidade de organizar uma turma gratuita destinada às forças de segurança.
A ideia inicial era disponibilizar dez vagas, considerando que o ensino da Libras exige acompanhamento visual próximo e atenção individualizada.
Com o interesse de profissionais de diferentes instituições, o projeto cresceu e precisou de apoio para acomodar os participantes.
Superação de dificuldades marcou realização das aulas
Além da mobilização dos alunos e voluntários, a organização precisou superar desafios estruturais.
Em uma das semanas, fortes chuvas provocaram infiltrações na sala utilizada para as aulas no Corpo de Bombeiros, comprometendo temporariamente o espaço.
Diante da situação, Tânia procurou a vereadora Ellen Affonso, que intermediou a utilização de uma sala da Câmara Municipal de Cambé.
Assim, uma das aulas foi realizada na sede do Legislativo, garantindo a continuidade do curso.
Tânia destacou a participação da parlamentar durante a organização.
“A Ellen foi fundamental. Sempre que precisamos de alguma coisa, ela prontamente nos ajudou”, afirmou.
A iniciativa também contou com o apoio das chefias das instituições participantes, que incentivaram a presença dos profissionais durante a capacitação.
Profissionais trocaram horas de descanso pelo aprendizado
Um dos aspectos que mais emocionaram os organizadores foi o comprometimento dos alunos.
Muitos participantes frequentaram as aulas fora do horário de expediente, depois de jornadas de trabalho nas ruas, delegacias, quartéis e unidades de atendimento de emergência.
Entre os exemplos lembrados por Tânia estão os profissionais do SAMU, Cíntia Gonçalves Ferreira e André Luis da Silva, que participaram da formação com o apoio da direção do serviço.
Segundo ela, André chegou diversas vezes diretamente do trabalho, ainda uniformizado, para não perder as aulas.
A dedicação também marcou a participação dos policiais civis de Cambé e Londrina, integrantes das Patrulhas Maria da Penha e profissionais do Corpo de Bombeiros.
A participação conjunta de instituições que atuam em diferentes áreas mostrou que a comunicação com pessoas surdas é uma necessidade presente em diversas situações do serviço público.
O que os profissionais aprenderam durante o curso?
A formação abordou conteúdos que podem ser utilizados tanto nas situações cotidianas quanto durante atendimentos policiais, emergências e serviços de saúde.
Entre os assuntos trabalhados estiveram a apresentação pessoal, o alfabeto manual, números, datas, identificação de familiares, características físicas, sentimentos e vocabulário relacionado aos espaços da cidade.
Também foram desenvolvidos conteúdos relacionados a doenças, medicamentos, profissionais de saúde, violência, crimes e situações que podem exigir a intervenção das forças de segurança.
O aprendizado contou com o apoio de integrantes da comunidade surda, proporcionando aos participantes a oportunidade de desenvolver a comunicação por meio da prática.
A proposta foi oferecer conhecimentos que ajudem a reduzir as barreiras de comunicação e proporcionem mais segurança às pessoas surdas durante os atendimentos.
Vereadora Ellen Affonso propõe Moção de Aplausos
O trabalho desenvolvido durante os três meses de formação motivou a apresentação de uma Moção de Aplausos pela vereadora Ellen Affonso, na Câmara Municipal de Cambé.
O documento, datado de 14 de setembro de 2026, reconhece a dedicação dos profissionais, do professor e dos voluntários que contribuíram para a realização do primeiro curso de Libras voltado às forças de segurança pública da região.
Na justificativa, a parlamentar destaca que o aprendizado representa mais do que conhecer uma nova língua.
A formação significa estar mais preparado para acolher, compreender e atender pessoas surdas em momentos de necessidade, garantindo orientação, proteção e socorro com dignidade e segurança.
A homenagem contempla os alunos de diferentes instituições, o professor Fernando Marquesini, monitores da comunidade surda e colaboradores voluntários.
Profissionais homenageados na Moção de Aplausos
Polícia Militar de Cambé — 11ª Companhia Independente
- Graziele de Melo Bicca — Patrulha Maria da Penha;
- Cléssella Batista de Carvalho — Auxiliar de Comunicação Social;
- Flavio Mazur — Patrulha Maria da Penha.
Polícia Militar de Londrina — 5º Batalhão
- Luci Mara Ferreira — Patrulha Maria da Penha;
- Kely Castagnaro — Patrulha Maria da Penha;
- Heloysa Sales — Patrulha Maria da Penha.
Corpo de Bombeiros Militar de Cambé
- Amanda Soares Gambera de Souza;
- Silvia Midori Akimoto;
- Adriane Maria Tuttis Silvestri.
SESTRAN de Cambé
– Nayron Nelson Niero dos Santos — Agente de Fiscalização do Trânsito.
SAMU de Cambé
- Cintia Gonçalves Ferreira — Técnica de Enfermagem;
- André Luis da Silva — Auxiliar Socorrista.
Polícia Civil
- Melina Ferreira dos Santos Verri — Delegacia de Polícia Civil de Cambé;
- Kenedy de Brito — Delegacia de Polícia Civil do Adolescente de Londrina.
Professor, monitores e voluntários também recebem reconhecimento
A Moção de Aplausos também destaca o trabalho do professor Fernando Marquesini e dos monitores que ajudaram a desenvolver as atividades.
Foram relacionados no documento:
- Monica José Silva Carloto;
- Juvenal Margonar;
- José Jocy de Campos;
- Maria Hercilia Souza Rodrigues;
- Renan Tanida Tolentino;
- Tania Maria Alessandrino — coordenadora voluntária;
- Aparecida Donizeti Bailoni Alessandrino — assistente voluntária.
A participação dos voluntários e membros da comunidade surda foi fundamental para aproximar o conteúdo das aulas das situações reais de comunicação.
Inclusão que pode transformar o atendimento em Cambé e região
Em uma ocorrência policial, um acidente de trânsito, uma situação de violência doméstica ou uma emergência médica, conseguir se comunicar com clareza pode fazer diferença na qualidade do atendimento.
Para uma pessoa surda, encontrar um profissional que tenha conhecimento de Libras representa a possibilidade de explicar o que aconteceu, compreender orientações e participar mais diretamente das decisões que envolvem sua própria segurança.
O curso realizado em Cambé abre espaço para uma mudança na relação entre os serviços públicos e a comunidade surda.
A experiência também demonstra como a colaboração entre servidores, voluntários, representantes do Legislativo e integrantes da própria comunidade pode transformar uma necessidade identificada no cotidiano em uma ação concreta.
Para Tânia, o resultado representa a realização de um sonho construído coletivamente.
“Eu lancei a ideia, várias pessoas abraçaram e foi isso que aconteceu”, resumiu.
Mais do que a conclusão de uma formação, a primeira turma deixa como resultado profissionais com novos conhecimentos e uma mensagem de que a acessibilidade também deve fazer parte da rotina de quem trabalha para proteger e atender a população.























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