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Nestlé e a Ditadura Militar: Revelações Sobre Vínculos e Financiamento à Repressão no Brasil

Documentos e pesquisas recentes vêm revelando o envolvimento de grandes empresas brasileiras e multinacionais com o regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Entre elas, a Nestlé, multinacional suíça do setor alimentício, aparece ligada a órgãos e ações que apoiaram a repressão durante o período.

O podcast “Perdas e Danos” dedicou um episódio para detalhar a relação da Nestlé com o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), um grupo conservador que colaborou para a instauração do golpe de 1964. Registros do Arquivo Nacional comprovam que o então presidente da Nestlé Brasil, Gualter Mano, realizou contribuições financeiras para o IPES.

Além disso, a empresa está citada no relatório final da Comissão Nacional da Verdade por ter colaborado financeiramente com a Operação Bandeirantes (OBAN), principal estrutura clandestina de tortura do regime militar. O apoio foi formalizado durante um banquete organizado pelo ministro Delfim Netto, onde multinacionais como Nestlé, General Electric e Mercedes Benz doaram recursos para o aparato repressivo.

Um dos nomes centrais dessa conexão é Oswaldo Ballarin, executivo que presidiu a Nestlé Brasil entre 1971 e 1978 e também esteve à frente da empresa Brown Boveri (atual ABB). Ballarin foi homenageado pelo Exército por seu apoio à repressão e é acusado de contratar a agência Consultores Industriais Associados (CIA), que atuava na vigilância de opositores e na organização de recursos para os esquadrões da morte.

Pesquisas da Universidade de Lausanne, na Suíça, revelaram documentos que ligam Ballarin e a Brown Boveri ao financiamento de ações violentas contra opositores do regime militar. A denúncia foi formalizada ao governo suíço em 1979, apontando cumplicidade em homicídios premeditados.

Durante o mesmo período, a Nestlé ampliou significativamente sua rentabilidade no Brasil, crescendo acima da média do Produto Interno Bruto, o que indica que o período de repressão coincidiu com expansão dos negócios da empresa no país.

Além das ligações políticas, a Nestlé enfrentou críticas internacionais por sua estratégia de marketing agressiva de leite em pó para bebês, que prejudicou o aleitamento materno, especialmente em países em desenvolvimento. No Brasil, o executivo Ballarin chegou a ministrar aulas em faculdades de medicina para promover fórmulas infantis, apesar de não ser médico.

Em 2024, a ONG suíça Public Eye denunciou que produtos infantis da Nestlé destinados a países pobres apresentam níveis maiores de açúcar do que os vendidos para crianças em países ricos, incluindo o Brasil.

Em nota, a Nestlé afirmou que não compactua com práticas de repressão ou violações de direitos humanos e que valoriza o respeito à democracia e à diversidade. A empresa, porém, não respondeu sobre a possibilidade de abrir seus arquivos históricos para investigação.

A ABB declarou adotar política de tolerância zero contra corrupção e violações de direitos humanos. Já a Itaipu, consórcio do qual a Brown Boveri fez parte, reconheceu o contexto autoritário da época e destacou iniciativas atuais voltadas à promoção dos direitos humanos.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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