Derrota para o Avaí agrava crise do Londrina e expõe problemas no planejamento da SAF, como desmontagem do elenco, contratações que não corresponderam às expectativas e atraso na construção do centro de treinamento.
O Londrina Esporte Clube está cada vez mais próximo de retornar à Série C do Campeonato Brasileiro. A derrota por 2 a 1 para o Avaí, nesta quarta-feira (7), na Ressacada, pela 32ª rodada da Série B, aprofundou uma crise que vai muito além das quatro linhas.
Com apenas 28 pontos e ocupando a 18ª colocação, o Tubarão enfrenta uma situação extremamente delicada na luta contra o rebaixamento. Restando seis rodadas, a equipe precisa de uma recuperação excepcional e ainda depende dos tropeços de seus concorrentes diretos.
Mas como um clube que conquistou o acesso em 2025 chegou a essa situação em sua primeira temporada de volta à Série B?
A resposta passa por decisões da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), controlada pela Squadra Sports, que assumiu a gestão do Londrina em 2024.
A saída de jogadores fundamentais durante a competição, as contratações emergenciais, a frustração com o atacante Gilberto, as mudanças no comando técnico e a ausência de um centro de treinamento próprio ajudam a explicar os problemas enfrentados em 2026.
Derrota para o Avaí deixa permanência ainda mais distante
O confronto contra o Avaí era tratado como uma verdadeira decisão para as duas equipes.
Antes da partida, o Londrina somava 28 pontos, enquanto o adversário catarinense tinha 30. Uma vitória poderia recolocar o Tubarão em melhores condições na disputa pela permanência.
Entretanto, o resultado foi mais um duro golpe nas pretensões do clube paranaense.
Com a derrota por 2 a 1, o Londrina permaneceu com 28 pontos, enquanto o Avaí chegou aos 33.
O Tubarão ainda pode alcançar matematicamente 46 pontos, caso vença todas as seis partidas restantes. Porém, a recuperação depende não apenas de uma sequência de vitórias, mas também de resultados favoráveis dos adversários.
Antes do confronto, levantamento divulgado pelo ge apontava apenas 9,6% de probabilidade de permanência. Com a derrota, esse percentual precisa ser atualizado, mas o cenário esportivo tornou-se ainda mais complicado.
Desmontagem do elenco durante a reação: um dos maiores problemas da SAF
Entre as decisões mais questionáveis da gestão está a perda de jogadores importantes justamente quando o Londrina começava a apresentar sinais de recuperação.
No início de julho, após golear o CRB por 5 a 0, o Tubarão demonstrava evolução dentro de campo.
Entretanto, naquele mesmo período, três titulares deixaram o clube: Bruno Santos, Iago Teles e André Luiz.
Bruno Santos era o principal goleador da equipe, com 17 gols em 31 partidas, sendo 11 pela Série B. O atacante foi transferido para o Mirassol após o pagamento integral da multa rescisória.
Iago Teles, outro nome importante do setor ofensivo, deixou o clube por empréstimo para o futebol japonês, enquanto André Luiz, titular do meio-campo, foi negociado definitivamente.
Embora cada negociação tenha suas particularidades, o impacto coletivo foi significativo.
O Londrina perdeu dois de seus principais jogadores de ataque e uma peça importante do meio-campo praticamente ao mesmo tempo.
É necessário reconhecer que o pagamento de uma multa rescisória pode limitar a capacidade de um clube impedir determinada transferência. Entretanto, a SAF deve ser cobrada pela preparação para essas situações e pela capacidade de reposição.
O problema não foi apenas perder jogadores. Foi perder peças fundamentais durante a competição sem conseguir preservar o rendimento da equipe.
Nove reforços em julho: planejamento ou desespero?
Após a saída dos titulares, o Londrina iniciou uma verdadeira reconstrução do elenco.
Em julho, foram contratados Nino Paraíba, Artur, Tárik, João Vitor, Geovane Meurer, Pablo Dyego, Raí Nascimento e Willian Pottker. Posteriormente, Guilherme Portuga também chegou ao clube.
Ao todo, nove reforços foram incorporados ao grupo naquele período.
A quantidade de contratações levanta uma questão importante: por que o Londrina precisou modificar tão profundamente seu elenco com a Série B em andamento?
Um campeonato longo e equilibrado exige planejamento antecipado, jogadores adaptados e um grupo capaz de suportar lesões, suspensões e eventuais negociações.
Contratar praticamente um novo time no meio da temporada significa exigir que atletas recém-chegados desenvolvam entrosamento enquanto os resultados continuam sendo cobrados.
O Londrina precisava de reforços, mas a necessidade de tantas mudanças revelou problemas na estruturação do elenco.
Gilberto: a contratação que prometia ser histórica e virou frustração
Outro capítulo importante da temporada foi a contratação do atacante Gilberto.
Com passagens por grandes clubes do futebol brasileiro, o centroavante chegou ao Londrina cercado de expectativas.
Sua contratação foi anunciada como um presente pelos 70 anos do clube. Apresentado com a camisa 70, Gilberto carregava a responsabilidade de ser uma das principais referências técnicas e ofensivas da equipe.
Posteriormente, recebeu a camisa 10, reforçando sua condição de contratação de destaque.
A expectativa era de que sua experiência e capacidade de finalização ajudassem o Londrina a enfrentar os desafios da Série B.
Entretanto, o retorno esportivo ficou muito abaixo do esperado.
Em levantamento publicado em junho pela Folha de Londrina, Gilberto havia disputado apenas 12 partidas, sendo três como titular. Na Série B, somava somente 69 minutos em campo e ainda não havia marcado gols ou distribuído assistências.
O jogador enfrentou problemas físicos, incluindo uma condição óssea que dificultou sua participação regular nas atividades e partidas.
É importante ressaltar que lesões não são culpa do atleta e que não há elementos suficientes para afirmar que a SAF conhecia previamente a extensão dos problemas físicos.
A questão de gestão é outra: a contratação de um jogador experiente, apresentado como grande nome da temporada, exigia uma avaliação criteriosa de sua disponibilidade física e um planejamento que não deixasse o setor ofensivo dependente de sua recuperação.
O contrato de Gilberto foi firmado até dezembro de 2027.
A frustração se tornou ainda mais evidente quando Bruno Santos, que vinha assumindo o protagonismo ofensivo, deixou o clube em julho.
O Londrina perdeu seu principal goleador enquanto a contratação de maior repercussão ainda não havia conseguido oferecer a contribuição esperada.
A situação simboliza uma das principais fragilidades do planejamento ofensivo da SAF em 2026.
Londrina ainda não tem um centro de treinamento próprio
Talvez um dos problemas estruturais mais importantes do projeto da SAF esteja fora dos gramados durante os jogos: a ausência de um centro de treinamento próprio, moderno e plenamente operacional.
Mesmo com a chegada da gestão empresarial, o Londrina entrou em 2026 sem contar com a estrutura definitiva prometida para a preparação de seus atletas.
A Squadra Sports anunciou um projeto de aproximadamente R$ 17 milhões para construir um centro de treinamento em uma área de 105 mil metros quadrados na estrada da Cegonha, zona sul de Londrina.
A proposta previa uma implantação em três etapas, incluindo campos de futebol, academia, departamento médico, vestiários, refeitório, alojamentos e instalações administrativas.
A primeira fase chegou a ter previsão de conclusão para o primeiro semestre de 2026.
Entretanto, as obras sofreram atrasos.
Em julho, reportagem da Folha de Londrina mostrou que o clube seguia utilizando principalmente o estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD), além de espaços da Associação dos Funcionários do Município de Londrina (AFML) e, eventualmente, do Estádio do Café.
Também havia tratativas para voltar a utilizar campos do antigo CT da SM Sports, pertencente ao ex-gestor Sérgio Malucelli.
O próprio presidente da Squadra Sports, Guilherme Bellintani, já havia reconhecido publicamente a importância de um centro de treinamento adequado para o desenvolvimento do futebol profissional e das categorias de base.
É necessário fazer uma distinção: o Londrina possui locais para treinar, mas não conta com o CT próprio e completo anunciado pela SAF.
Essa diferença é significativa.
Um centro de treinamento moderno permite concentrar atividades físicas, recuperação de atletas, fisioterapia, acompanhamento médico, análise de desempenho e preparação tática em um ambiente integrado.
A ausência dessa estrutura não explica isoladamente o rendimento do time e não comprova que determinada lesão ou derrota tenha sido causada por ela.
Entretanto, representa uma deficiência estrutural relevante para um clube que pretende se consolidar na Série B e, futuramente, disputar o acesso à elite nacional.
A pergunta que permanece é: como construir um projeto esportivo de longo prazo sem concluir uma das principais estruturas necessárias ao desenvolvimento do elenco?
Mudanças de treinador prejudicaram a continuidade do trabalho
O Londrina também enfrentou instabilidade no comando técnico.
Roger Silva, responsável pelo acesso à Série B em 2025, deixou o clube após receber uma proposta do Sport.
A saída não foi provocada por uma demissão da SAF, mas obrigou a direção a buscar um novo treinador para a temporada seguinte.
Allan Aal foi contratado e conseguiu levar a equipe à final do Campeonato Paranaense. Entretanto, o desempenho na Série B ficou abaixo das expectativas.
Após uma sequência negativa, o treinador acabou demitido em maio.
Rogério Micale assumiu o comando com a missão de recuperar a equipe e afastá-la da zona de rebaixamento.
Assim, em poucos meses, o Londrina passou por três comandos técnicos diferentes, considerando o treinador do acesso.
Cada profissional possui suas próprias ideias de jogo, preferências de atletas e métodos de preparação.
As mudanças não podem ser apontadas como causa única da crise, mas dificultaram a continuidade de um trabalho que precisava ser consolidado justamente na temporada de retorno à segunda divisão.
Contratações de curto prazo e pouco retorno esportivo
A política de contratações também merece avaliação.
Durante a temporada, o Londrina buscou jogadores experientes e atletas que chegaram por empréstimo ou com contratos de curta duração.
Nino Paraíba, contratado aos 40 anos, representa uma aposta em experiência para uma necessidade imediata.
Outros jogadores foram incorporados ao elenco durante o campeonato, sem tempo suficiente para realizar uma pré-temporada com o grupo.
Um caso emblemático foi o de Fellipinho, que chegou em setembro e deixou o clube aproximadamente duas semanas depois, tendo disputado apenas 13 minutos.
Esse tipo de movimentação levanta questionamentos sobre os critérios utilizados para selecionar reforços.
O Londrina não precisava apenas contratar jogadores. Precisava identificar atletas capazes de oferecer respostas imediatas, considerando as características do elenco e a situação da equipe na classificação.
A sucessão de contratações emergenciais demonstra que a SAF encontrou dificuldades para estabelecer um grupo equilibrado e competitivo.
Até na luta contra o rebaixamento o Londrina perdeu jogadores
A instabilidade do elenco não terminou em julho.
Em setembro, o atacante Paulinho Moccelin deixou o clube após receber uma proposta para atuar no futebol do Bahrein.
A oportunidade financeira foi um fator importante na transferência.
Entretanto, a saída ocorreu em um momento no qual o Londrina já enfrentava dificuldades na luta pela permanência.
Mais uma vez, o clube precisou lidar com a perda de um atleta durante uma fase decisiva da competição.
O episódio reforça a discussão sobre a capacidade da SAF de manter um elenco competitivo enquanto administra propostas e negociações de mercado.
SAF prometeu investimento e profissionalização: o que foi entregue?
A Squadra Sports adquiriu 90% da SAF do Londrina em 2024, dentro de um projeto que previa investimentos próximos de R$ 100 milhões até 2029.
O objetivo era reorganizar o clube, fortalecer sua estrutura, melhorar a capacidade financeira e alcançar resultados esportivos consistentes.
É importante reconhecer que a gestão obteve avanços, especialmente com o acesso à Série B em 2025 e a recuperação de parte da estrutura utilizada pelo clube.
Entretanto, o retorno à segunda divisão deveria representar uma etapa de consolidação.
Em vez disso, o Londrina enfrenta uma campanha marcada por dificuldades esportivas, mudanças no elenco e risco concreto de rebaixamento.
Também é necessário esclarecer que o valor anunciado para investimentos não significa, obrigatoriamente, dinheiro destinado exclusivamente à contratação de jogadores.
Parte dos recursos está relacionada à reorganização financeira, pagamento de obrigações, infraestrutura e manutenção das operações.
Por isso, a cobrança precisa ser acompanhada de transparência: quanto foi efetivamente investido no futebol profissional, na estrutura de treinamento e na formação do elenco de 2026?
Os erros de planejamento que precisam ser explicados
A análise da temporada permite identificar sete problemas centrais na condução do projeto esportivo:
1. Falta de reforços suficientes antes da Série B: o clube iniciou uma competição mais exigente sem ampliar adequadamente as opções do elenco.
2. Perda simultânea de jogadores fundamentais: Bruno Santos, Iago Teles e André Luiz deixaram a equipe durante uma reação importante.
3. Reposição emergencial: nove jogadores chegaram na janela de julho, exigindo uma reconstrução com o campeonato em andamento.
4. Aposta frustrada em Gilberto: a principal contratação de repercussão da temporada não conseguiu apresentar a regularidade e o desempenho esperados, em grande parte por problemas físicos.
5. Ausência de um CT próprio concluído: o projeto estrutural anunciado pela SAF sofreu atrasos e o clube continuou dependendo de instalações alternativas.
6. Instabilidade no comando técnico: a saída de Roger Silva e a posterior demissão de Allan Aal obrigaram a equipe a se adaptar a diferentes trabalhos.
7. Falta de continuidade do elenco: mesmo durante a luta contra o rebaixamento, o Londrina continuou perdendo atletas e buscando soluções de última hora.
Esses problemas não significam que todas as decisões tenham sido equivocadas isoladamente. Algumas saídas ocorreram por pagamento de multa, oportunidades internacionais ou circunstâncias fora do controle direto da gestão.
O questionamento principal está no conjunto das decisões e na capacidade de antecipar riscos.
O preço de um possível rebaixamento
Caso o Londrina confirme a queda para a Série C, as consequências poderão ultrapassar o desempenho esportivo.
A mudança de divisão tende a afetar receitas, negociações comerciais, valorização de jogadores e capacidade de atrair novos reforços.
Também poderá comprometer a confiança de parte da torcida no projeto da SAF, especialmente diante das expectativas criadas após o acesso de 2025.
Um rebaixamento exigiria uma revisão profunda da política de contratações, da estrutura de futebol, dos investimentos e das prioridades da gestão.
O Londrina não pode depender apenas de vender jogadores valorizados e buscar substitutos durante o campeonato. Para construir estabilidade esportiva, precisa de planejamento, continuidade e infraestrutura.
A SAF precisa prestar contas ao torcedor
O Londrina ainda possui chances matemáticas de permanecer na Série B, mas a situação exige resultados excepcionais nas últimas rodadas.
Independentemente do desfecho, a temporada de 2026 já apresenta motivos suficientes para uma avaliação pública da gestão.
A SAF deve explicar as decisões tomadas no mercado, os critérios de contratação, os investimentos realizados, o atraso no centro de treinamento e as medidas previstas para recuperar a competitividade do clube.
A conquista do acesso em 2025 foi um resultado importante e precisa ser reconhecida. Entretanto, a manutenção na Série B era o desafio seguinte.
A derrota para o Avaí não criou a crise. Ela aprofundou uma situação construída ao longo de meses.
O problema do Londrina não foi simplesmente perder jogadores, trocar treinadores ou contratar reforços que não corresponderam. Foi não conseguir transformar o acesso em um projeto esportivo sustentável e competitivo.
A torcida tem motivos para cobrar respostas.
Afinal, depois de tanto esforço para retornar à Série B, o Londrina corre o risco de voltar à Série C sem sequer ter concluído seu centro de treinamento próprio.
E a pergunta que permanece é inevitável:
De que adianta conquistar o acesso se o planejamento da temporada seguinte não consegue sustentar o clube na divisão conquistada?






