Um relatório divulgado nesta quarta-feira (28) pela Human Rights Watch (HRW) revelou falhas graves na apuração das mortes ocorridas durante a Operação Contenção, realizada há um ano nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. A ação resultou em 122 mortes, sendo cinco policiais e 117 civis, e até o momento, segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública, apenas os casos envolvendo policiais tiveram investigações concluídas.
De acordo com o relatório, a maioria das mortes de civis segue sem esclarecimento, mesmo diante de indícios de ilegalidades e excessos cometidos durante a operação. A HRW analisou quase 9 mil páginas de documentos, laudos de necropsia e milhares de horas de imagens de câmeras corporais, além de ouvir testemunhas, familiares das vítimas e especialistas.
Falta de perícia e preservação de provas
O relatório aponta que equipes de perícia não foram enviadas aos locais das mortes durante a operação, dificultando a coleta de provas. Muitos corpos foram retirados por policiais ou moradores e levados para outros pontos sem acompanhamento técnico, o que prejudicou o trabalho dos legistas. Além disso, locais de crime não foram preservados, incluindo residências e áreas próximas à estação de trem, contrariando protocolos básicos de investigação.
Irregularidades no uso de câmeras corporais
A HRW identificou que apenas 23% dos policiais envolvidos na operação utilizavam câmeras corporais, e, mesmo assim, as gravações apresentaram diversas interrupções em momentos críticos. Há indícios de manipulação dos equipamentos, como ocultação das lentes ou desligamento proposital durante confrontos e prisões. O tempo médio de gravação ficou bem abaixo do esperado, e baterias extras não foram levadas, descumprindo normas internas da corporação.
Indícios de execuções e excesso de força
O relatório destaca que 60% dos civis mortos foram atingidos por quatro ou mais disparos, com muitos apresentando ferimentos nas costas e na cabeça. Casos de tiros a curta distância e relatos de execuções, inclusive de pessoas que tentavam se entregar, chamam atenção para possíveis abusos cometidos durante a operação. A HRW também cita situações em que corpos foram encontrados despidos, dificultando a análise dos ferimentos.
Resposta das autoridades e andamento das investigações
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que as investigações sobre as mortes continuam em andamento, com centenas de depoimentos e laudos já produzidos. O Ministério Público acompanha o caso, mas até agora não há conclusões sobre a maioria das mortes. As polícias Civil e Militar não concederam entrevistas sobre o assunto.
Contexto e impacto local
A Operação Contenção marcou a vida de moradores dos complexos da Penha e do Alemão, que ainda aguardam respostas sobre as circunstâncias das mortes. O episódio reacende o debate sobre a atuação policial em áreas de favela e a necessidade de maior transparência e rigor nas investigações de letalidade policial no Rio de Janeiro.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br







